Custa Caro Ser Você Mesmo? Como essa pergunta chave revela a Segurança Psicológica

por Timothy R. Clark


Qual é a pergunta mais importante que você pode fazer para revelar o nível de segurança psicológica em uma equipe? Resposta: "Custa caro ser você mesmo?" Eu chamo essa a pergunta chave. Deixe-me dar três exemplos recentes onde eu a usei: Não faz muito tempo nos despedimos de uma mulher maravilhosa do Brasil que trabalhava como estagiária da nossa empresa. Ela já havia trabalhado para uma grandeempresa em São Paulo. Em seu primeiro dia, eu lhe fiz a pergunta chave: "Quando você estava trabalhando para aquela organização, custava caro ser você mesma?" Ninguém nunca lhe fez a pergunta chave, mas ela sabia imediatamente o que eu quis dizer. "Sim", ela disse. "Eu não tinha permissão para dizer nada." Tive uma conversa semelhante com um executivo de uma grande empresa de tecnologia que fazia parte de uma equipe de liderança que estava se desmembrando. Eu fiz novamente a pergunta chave, "custava caro ser você mesmo"? Até no Zoom, eu podia ver seus olhos rolarem. "Meu trabalho", disse ele, "era receber ordens e executar. Eles não queriam a minha opinião”. "Mas você é um executivo", eu protestei. "Eu sei", ele disse. "E agora que os líderes mais antigos se foram, eu posso finalmente respirar - posso ser eu mesmo. Posso finalmente influenciar”. "Mas como sobreviveu sob esse regime por três anos?" Eu perguntei. "Sendo outra pessoa", disse ele. Agora um terceiro exemplo: eu estava conversando com uma mulher que acabou deser promovida a gerência em uma empresa de serviços financeiros. Eu também lhe fiz a pergunta chave. "Uau", ela disse. "Eu teria que dizer não. Meu chefe é durão e tem expectativas super altas. Mas ele me deixa ser eu mesma. Ele me respeita e ouve. Ele é um ser humano que me valoriza e me dá a responsabilidade."1 Timothy R. Clark

A pergunta chave é poderosa porque vai direto na essência da cultura, que é a segurança psicológica — o óleo lubrificante da colaboração humana. Todos nós usamos a detecção de ameaças e, em seguida, jogamos ataque ou defesa Quando os seres humanos interagem em ambientes sociais, eles subconscientemente se envolvem na detecção de ameaças. Observamos, monitoramos e avaliamos a dinâmica do grupo — não apenas uma vez, mas continuamente. O que estamos procurando? Estamos tentando descobrir se podemos ser nós mesmos, se o ambiente é psicologicamente seguro. Segurança psicológica significa que não custa muito ser vocêmesmo — não social, emocional, política ou economicamente. Especificamente, segurança psicológica significa que você sente quatro coisas:1. Inclusão

  1. Segurança para aprender

  2. Segurança para contribuir

  3. Segurança para desafiar o status quo

Tudo isto sem o medo de que você será envergonhado ou marginalizado, colocar em risco sua posição pessoal ou reputação ou ser sujeito à ridicularização ou retaliação. Como criaturas adaptáveis, temos dois modos de desempenho: ataque e defesa. Se sentimos que o cenário é seguro, jogamos no ataque. Geramos uma resposta de alto desempenho e jogamos nosso melhor jogo - jogamos para ganhar. Investimos esforços extras e entramos de cabeça naquilo que estamos fazendo. Contribuímos plenamente com nossas habilidades, conhecimento e experiência. Queremos fazer a diferença. Por outro lado, se sentimos que o cenário é inseguro, mudamos para o modo de defesa. Oferecemos uma resposta de sobrevivência. Não estamos jogando para ganhar. Estamos jogando para não perder. Sabemos instintivamente que nossa prioridade é gerenciar riscos pessoais, por isso alternamos entre um modelo mental de autopreservação e prevenção de perdas. Reduzimos a vulnerabilidade e usamos nossas capacidades criativas e produtivas para nos protegermos. Falamos, fazemos etentamos menos. Fazemos menos perguntas, sugestões e tentativas para evitar erros. Ativando o instinto de autocensura A detecção de ameaças é automática, instintiva. Você não consegue mudar este comportamento em si mesmo ou nos outros, nem deveria querer. Todos temos um instinto de autocensura. É um equipamento padrão que todos temos. Quando sentimos o perigo no ambiente, ele desencadeia esse instinto de autocensura e uma resposta adaptativa. Nós recuamos. Mesmo ambientes saudáveis, com alta segurança psicológica, podem mudar em um instante se houver uma violação de respeito ou um ato de incivilidade.

Abaixo está descrita uma autoavaliação que inclui 12 violações comuns da segurança psicológica que ocorrem rotineiramente nas organizações. Leia as 12 perguntas e pergunte a si mesmo se você já sofreu alguma dessas violações nas últimas 24 horas.

  1. Você se sentiu excluído em algum ambiente da empresa?

  2. Você sentiu medo de fazer uma pergunta?

  3. Você permaneceu em silêncio mesmo quando sabia da resposta para um problema?

  4. Uma outra pessoa roubou o crédito de algo que você fez?

  5. Você deu uma sugestão que foi ignorada?

  6. Você foi rudemente interrompido em uma reunião?

  7. Você sentiu que era alvo de um estereótipo negativo?

  8. Você enfrentou retaliação por desafiar o status quo/”como as coisas funcionam aqui”?

  9. Você teve um chefe que pediu feedback mas que na verdade não queria?

  10. Você já foi publicamente envergonhado ou ridicularizado?

  11. Você foi punido por cometer um erro honesto?

  12. Alguém fez você se sentir inferior?

Existe algum ser humano que não experimentou pelo menos uma dessas violações da segurança psicológica? Infelizmente não, mas o ponto mais importante é a frequência com que ocorrem. Esses atos de incivilidade são muito comuns - acontecem todos os dias. Numa pesquisa realizada pela minha equipe, descobrimos que 60% dos funcionários disseram sim a pelo menos uma dessas perguntas a cada 24 horas. Essa constatação não é apenas explicativa; é também presciente. Em outras palavras, podemos prever com alto grau de certeza que você experimentará algum tipo de micro agressão ou evento interpessoal adverso que ativará seu instinto de autocensura e o impelirá a um modo defensivo de desempenho nas próximas 24 horas. Não é à toa que a maioria das equipes não desempenha com total capacidade. Não é à toa que tantos funcionários se sintam desengajados. Não é à toa que muitas vezes sentimos que é custoso sermos nós mesmos!Faça a pergunta chave e em seguida ouça Cada equipe funciona de acordo com um nível diferente de segurança psicológica. Claramente, o impacto mais profundo sobre esta questão é o comportamento do líder2. Quando perguntamos aos líderes se eles estão cientes da maneira como seu comportamento afeta os outros, 90% deles responde de forma afirmativa. Mas se sondarmos e pedirmos que expliquem como seu comportamento afeta os outros, muitas vezes eles não conseguem oferecer uma resposta coerente. Como, então, é2 Porque a cultura do time é a extensão da sombra do líder.

possível abrir mão de muitas camadas de proteção para ganhar maior autoconsciência? Sugiro que, ao invés de passar horas em profunda introspecção, você vá falar diretamente com o seu time. Chame-os de lado, um a um, e faça-lhes a pergunta chave: "Como um membro desta equipe, custa caro ser você mesmo?" Mesmo diante do medo e do poder da posição, a maioria dos funcionários responderá a essa pergunta de forma honesta, pois é muito mais seguro falar da sua própria experiência do que criticar outra pessoa, mesmo que você esteja denunciando de forma indireta a pessoa que está perguntando. E não menos importante, você está dando à outra pessoa uma chance de ser ouvida. É um risco interpessoal que a maioriadas pessoas está disposta a correr. Elas querem falar sobre sua experiência e como se sentem. Na medida em que respondem à pergunta chave, elas responderão à sua pergunta. A resposta delas será um espelho do seu impacto. Ouça cuidadosamente. Você poderá se surpreender com aquilo que irá descobrir.